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30/08/2026

O que cada candidatura propõe para a economia: os planos de governo de 2026, lidos na fonte

Leitura direta dos planos de governo registrados no TSE pelas cinco candidaturas mais bem posicionadas. O que consta dos documentos, o que não consta, e quatro afirmações amplamente repetidas que os originais não confirmam.

Aviso de conteúdo eleitoral. Este texto trata da eleição presidencial de 2026, cujo primeiro turno ocorre em 4 de outubro. Ele descreve o conteúdo dos planos de governo registrados no TSE e não declara apoio, preferência ou oposição a nenhuma candidatura. Não é propaganda eleitoral, não foi produzido ou financiado por nenhuma campanha, partido ou coligação, e não constitui pedido de voto. A escolha é do eleitor.

Validade. Os documentos foram consultados no TSE em agosto de 2026 e este texto reflete o que constava naquela data. Alterações posteriores no registro de candidaturas, decisões judiciais sobre elegibilidade ou novas versões dos planos não estão refletidas aqui. O primeiro turno ocorre em 4 de outubro de 2026. Em caso de divergência, prevalece sempre o PDF oficial no site do TSE.

Aviso de natureza do conteúdo. Este material tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Não constitui recomendação, sugestão ou aconselhamento de investimento, nem análise de valores mobiliários nos termos da Resolução CVM nº 20/2021. Não indica compra, venda ou manutenção de qualquer ativo, não projeta retornos e não deve ser usado como base isolada para decisões financeiras. Cenários políticos são incertos por natureza e desempenho passado não garante resultado futuro.


Por que este texto existe

Nós acompanhamos variáveis macro porque elas são insumo de contexto para qualquer operação em B3 — não porque tenhamos alguma leitura privilegiada sobre quem vai ganhar a eleição. Ciclos eleitorais tendem a aparecer nos ativos brasileiros como elevação de volatilidade e de prêmio de risco, e boa parte do que se lê sobre "o que cada candidato faria com a economia" é reprodução de resumos de segunda mão.

Então fizemos o óbvio: baixamos e lemos os planos de governo registrados no TSE.

Quatro afirmações amplamente repetidas sobre esta eleição não se sustentam nos documentos originais. Uma delas atribui à candidatura errada as duas medidas de maior impacto fiscal estrutural em disputa. Estão todas listadas na seção Correções, com o que os documentos de fato dizem.


Nota sobre fontes e método

Foram lidos, na íntegra ou em suas seções econômicas e institucionais, os cinco documentos das candidaturas mais bem posicionadas nas pesquisas:

CandidaturaDocumentoPáginas
Lula (PT), vice Geraldo Alckmin (PSB)"Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil"84
Flávio Bolsonaro (PL), vice Alfredo Gaspar (PL)"Para o Brasil vencer o atraso"76
Romeu Zema (Novo), vice Eduardo Girão (Novo)"Plano Implacável"81
Ronaldo Caiado (PSD), vice Gilberto Kassab (PSD)"Sou Ronaldo Caiado"100
Renan Santos (Missão), vice Coronel Medina (Missão)"O Futuro é Glorioso"51

Ressalvas de método, sem as quais o resto não deve ser lido:

  1. O pacote consolidado do portal de dados abertos do TSE (proposta_governo_2026_BR.zip) não estava acessível no ambiente em que este texto foi produzido. Os documentos vieram de um espelho público dos mesmos arquivos do DivulgaCandContas. Havendo qualquer divergência, prevalece o PDF oficial no site do TSE.

  2. O documento do Partido Missão registrado no TSE é um resumo executivo de 51 páginas de uma obra que a própria candidatura descreve como tendo mais de 500 páginas. Onde se afirma aqui que algo "não consta", isso significa que não consta do documento registrado — não que não exista no livro completo.

  3. Os planos de Caiado e Renan Santos foram lidos parcialmente, por extensão. As seções econômicas, fiscais e institucionais foram cobertas; capítulos setoriais podem conter propostas não recolhidas aqui.

  4. Números atribuídos a cada plano são os números que aquele plano apresenta. Eles divergem entre si, inclusive sobre os mesmos indicadores, e não foram auditados de forma independente.

  5. Este texto descreve propostas e discute implicações plausíveis. Não avalia qual candidatura seria melhor para o país e não recomenda voto.


O quadro que qualquer vencedor herda

Treze candidaturas foram registradas até o prazo final, às 19h de 15 de agosto. Doze registraram plano de governo.

Segundo o Boletim Focus do Banco Central de 24 de agosto de 2026, as projeções de mercado para o encerramento deste ano:

IndicadorProjeção
IPCA5,02% (acima da meta)
PIB1,95% (revisado para baixo, de 1,98%)
Selic13,75%
DólarR$ 5,20
Dívida líquida do setor público~69,9% do PIB
Resultado nominal-8,79% do PIB

O desemprego, em contrapartida, está em 6,1%, perto do menor patamar da série histórica recente.

Há um ponto que nenhum dos cinco planos enfrenta diretamente. Com resultado nominal próximo de -8,8% do PIB, a maior parte do rombo é conta de juros, não gasto primário. Cortar despesa ajuda, mas o que estabiliza a dívida é a queda dos juros — e a queda dos juros depende, entre outros fatores, da credibilidade do corte. É um problema circular. Os cinco planos identificam os juros altos como obstáculo central e nenhum detalha prazos ou instrumentos para reduzi-los.


Lula (PT, nº 13)

"Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil", 84 páginas, 13 eixos

Diagnóstico do próprio plano. Afirma que a economia voltou a crescer em torno de 3% ao ano, com inflação média anual de 4,6% no mandato, esforço fiscal de aproximadamente 2% do PIB (R$ 240 bilhões) entre 2023 e 2026, e déficit primário encerrando 2026 próximo de 0,4% do PIB. Registra Gini em 0,504 e pobreza extrema em 4,6% da população.

Política fiscal. Manutenção do novo arcabouço fiscal, sem substituição da regra. Resultado vindo de crescimento, controle do gasto primário, melhoria da qualidade do gasto e justiça tributária.

Um ponto pouco divulgado: o plano ataca as emendas parlamentares. Registra que somaram R$ 50 bilhões no orçamento de 2026, cerca de um quinto dos recursos discricionários do Executivo, e classifica as emendas impositivas e o orçamento secreto como práticas que "sequestram o orçamento público".

Tributação. Consolidação da reforma do consumo já aprovada: cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS, ISS) substituídos por dois (CBS e IBS), com cesta básica isenta e cashback. Registra como já feito a tributação de offshores, fundos exclusivos e renda dos mais ricos, e a isenção de IR até R$ 5.000. Para o próximo mandato, fala genericamente em justiça tributária, sem proposta específica nova de tributação patrimonial.

Estatais e crédito. Controle estatal sobre Petrobras, BB, Caixa e BNDES, sem privatização de empresas estratégicas. BNDES como agente central de financiamento; Nova Indústria Brasil com R$ 860 bilhões disponibilizados entre 2023 e 2026. Novo PAC com R$ 1,3 trilhão executados; investimento em infraestrutura de R$ 280 bilhões em 2025 e previsão de R$ 300 bilhões em 2026.

Outro item ausente das comparações jornalísticas: o plano propõe aprofundar o mercado de capitais doméstico — debêntures de infraestrutura, FIPs, mercado secundário de recebíveis e ampliação do papel de investidores institucionais como financiadores de longo prazo.

Trabalho e social. Bolsa Família mantido e ampliado; valorização real do salário mínimo com ganhos reais para trabalhadores, aposentados e beneficiários do BPC. Nenhuma nova reforma previdenciária. Minha Casa Minha Vida com meta de 3 milhões de moradias até o fim de 2026; o plano registra crédito imobiliário acima de 10% do PIB.

Implicação. Consolidação apoiada em crescimento e receita, com preservação da rede de proteção social. O risco central é aritmético: sem reforma da Previdência e com benefícios indexados, a trajetória depende de arrecadação e crescimento que a projeção de PIB de 1,95% não sustenta com folga. O risco derivado é que uma consolidação percebida como lenta mantenha alto o prêmio de risco.


Flávio Bolsonaro (PL, nº 22)

"Para o Brasil vencer o atraso", 76 páginas

Diagnóstico do próprio plano. Dívida pública cresceu cerca de 13 pontos do PIB em quatro anos. Custo logístico de 15,5% do PIB, contra 8,8% nos EUA. 85% das famílias que ganham até três salários mínimos estão endividadas. Fila do INSS em 3 milhões de requerimentos no início de 2026. Custo do trabalhador formal em cerca de duas vezes o salário levado para casa.

Política fiscal. "Tesouraço": corte de gastos, reforma administrativa, corte de ministérios, revisão normativa infralegal e profissionalização da gestão. Reformulação das regras fiscais, sem detalhamento da nova âncora no documento registrado. Meta de crescimento de 4% ao ano na próxima década, contra média de 2% nas últimas duas.

Tributação. Revisão e redimensionamento da reforma tributária em curso, com o objetivo declarado de reduzir o IVA, que o plano projeta em torno de 30% contra média de 19% na OCDE. Redução de impostos sobre energia e combustíveis; retorno do IOF ao patamar de 2022.

Estatais e crédito. Aqui está a maior surpresa da leitura. O plano traz um "Programa Nacional de Desestatização" sem percentual nem lista de empresas — e, em sentido oposto ao que se costuma atribuir à candidatura, propõe ampliar o papel dos bancos públicos. A CAIXA se torna o "Banco da Prosperidade", concentrando crédito, orientação financeira, apoio ao empreendedorismo, habitação e regularização. Banco do Nordeste e Banco da Amazônia são descritos como "motores dessa prosperidade". O BNDES apoia a internacionalização de pequenas e médias empresas e financia infraestrutura.

R$ 900 bilhões em quatro anos em rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias, com fundo lastreado em securitização de ativos e imóveis da União. Mecanismos de estabilidade regulatória de até 20 anos para grandes projetos; licença ambiental concedida por decurso de prazo quando o órgão não se manifestar.

Trabalho. Redução gradual do custo do trabalho, com a formulação explícita de que será feita "sem retirar direitos". Prevalência do negociado sobre o legislado. Contrato específico para jovens de 18 a 24 anos no primeiro emprego e para pessoas de 50 anos ou mais desempregadas há 12 meses ou mais. Posição declarada contra a unicidade sindical.

Previdência. O capítulo chama-se "O lado dos aposentados: fim das fraudes". Pacote antifraude, digitalização e gestão profissional do INSS. Não há proposta de nova reforma da Previdência, nem de desindexação do salário mínimo ou do BPC, no documento registrado.

Social. "Vamos manter os programas sociais existentes", com aperfeiçoamento de gestão e combate a fraudes. O texto é enfático quanto a não retirar a ajuda de quem depende dela. Casa Verde e Amarela retomado, com meta de 2,5 milhões de residências. Voucher-creche e voucher educacional onde não houver vaga pública.

Um item que merece escrutínio público. O programa "Ganha-Ganha" cria um sistema voluntário de pontuação operado pela CAIXA, em que atitudes como concluir cursos, formalizar negócio, poupar e manter contas em dia geram pontos conversíveis em juros menores, cashback e acesso facilitado ao crédito. O plano afirma que a adesão é voluntária, que as regras serão transparentes e que ninguém perde direitos por não aderir. Independentemente do mérito, é uma inovação institucional de porte, com implicações de privacidade e de discricionariedade estatal, e praticamente não foi discutida na campanha.

Implicação. Ajuste concentrado em despesa administrativa e custeio, redução de carga tributária sem fonte de compensação declarada, e aposta em crescimento de 4% ao ano como solução para a conta fiscal — hipótese que a projeção de 1,95% não corrobora. Em economia, é a candidatura mais moderada do campo conservador: mantém programas sociais, não reforma a Previdência, não desindexa benefícios e amplia os bancos públicos.


Romeu Zema (Novo, nº 30)

"Plano Implacável", 81 páginas

Diagnóstico do próprio plano. Carga tributária em torno de 32,4% do PIB. Dívida acima de R$ 10 trilhões, perto de 80% do PIB, contra 71% em 2023. Juros consumindo cerca de R$ 1 trilhão por ano. Custo Brasil estimado em R$ 1,7 trilhão anuais. 53 mil servidores acima do teto, a um custo de cerca de R$ 20 bilhões por ano. 38,5 milhões de informais, ou 37,5% dos ocupados, no trimestre encerrado em janeiro de 2026. Gasto com pessoal em 13,5% do PIB, contra 9,3% na OCDE. Ampliação da máquina de 23 para 38 ministérios.

Política fiscal. Choque fiscal como condição prévia a todo o resto. Reforma da Previdência "de forma definitiva", envolvendo estados, municípios, previdência rural e militar, com reajuste automático da idade mínima com base na expectativa de vida. Revisão do crescimento automático das obrigatórias e das emendas. Reforma administrativa com redução de ministérios e cargos. Fim de supersalários, verbas indenizatórias acima do teto, férias de 60 dias e aposentadoria compulsória como punição. Metas progressivas de redução da carga tributária que forcem o corte de gastos necessário para atingi-las — invertendo a lógica atual. Manutenção de superávits primários.

Estatais e crédito. Privatização de todas as estatais. É a única das cinco candidaturas principais a propor isso. Desverticalização da Petrobras: separação de produção, refino, transporte e logística em empresas distintas, para permitir entrada de concorrentes. Fim do preço político dos combustíveis. Eliminação do monopólio estadual na distribuição de gás natural.

Também é a única a propor redução gradual do crédito direcionado, incluindo linhas subsidiadas do BNDES.

Trabalho. Regime alternativo à CLT, de adesão consensual, em que as partes podem negociar remuneração variável, periodicidade de pagamento, jornada diária acima de 8 horas respeitado o limite de 44 semanais, dias trabalhados e divisão de férias. Não é extinção da CLT: é um regime paralelo. Zerar encargos sobre o equivalente a um salário mínimo na contratação de quem está há mais de um ano na informalidade. Fim do monopólio sindical.

Social. Bolsa Família mantido e unificado, mas condicionado: adultos aptos permanecem apenas enquanto buscam emprego, estudam ou se qualificam, com suspensão para quem recusar oferta formal sem justificativa — excetuados responsáveis por cuidados. Prêmio de R$ 5 mil às famílias que deixarem o programa por superação do limite de renda. "Sócios do Brasil": depósito de R$ 1.000 para cada brasileiro ao nascer, em fundos de ações, com saque aos 18 anos.

Inserção externa — a proposta mais consequente e menos noticiada. Sair do BRICS, de forma diplomática, preservando relações comerciais. Transformar o Mercosul de união aduaneira em zona de livre comércio, para que o Brasil possa assinar acordos sozinho. Ingressar na OCDE. Alinhar gradualmente as tarifas de importação à média dos países em desenvolvimento.

Implicação. É o programa mais alinhado ao que o mercado financeiro classicamente pede. Implementado integralmente, produziria contração de demanda pública no curto prazo — provável recessão técnica — em troca de trajetória de dívida mais benigna adiante. O calcanhar é a viabilidade: o Novo tem bancada mínima no Congresso e quase toda a agenda exige emenda constitucional. O candidato afirma no plano que não teme medidas impopulares por não planejar reeleição.


Ronaldo Caiado (PSD, nº 55)

"Sou Ronaldo Caiado", 100 páginas, 26 temas

É o plano mais sistematicamente organizado dos cinco: cada tema tem sumário executivo, diagnóstico, propostas numeradas, indicadores de acompanhamento e um compromisso final explícito.

Diagnóstico do próprio plano. Em 1980, a renda por habitante em PPP era de US$ 4.427, acima da média mundial de US$ 3.380 e equivalente a 42% da renda dos países desenvolvidos. Em 2024, alcançou US$ 23.380, abaixo da média global de US$ 26.188 e correspondente a apenas 31% da média das economias avançadas (US$ 75.516). A produtividade por hora trabalhada cresceu cerca de 0,5% ao ano entre 1981 e 2024. O investimento em P&D é de pouco mais de 1% do PIB, contra 2,7% na OCDE.

Política fiscal. "Orçamento da Verdade" nos primeiros meses: diagnóstico completo de obrigatórias, passivos, subsídios, benefícios tributários, restos a pagar, fundos, garantias e riscos fiscais. Estratégia plurianual com trajetória para estabilizar a dívida, metas anuais, bandas de tolerância e cláusulas de correção. Despesas obrigatórias crescendo abaixo do PIB nominal, preservando direitos adquiridos. Revisão de subsídios e benefícios tributários com exigência de prazo, objetivo, contrapartida e avaliação independente. Aplicação efetiva do teto constitucional em todos os Poderes.

A formulação é explícita: estabilizar a dívida "sem transferir a conta aos mais pobres e sem recorrer a aumentos permanentes de carga tributária". E há coordenação entre política fiscal e monetária com respeito à autonomia do Banco Central.

Crescimento. "Estratégia Brasil 2040", com revisão a cada quatro anos. Meta de elevar a taxa de investimento total dos atuais cerca de 17% do PIB para aproximadamente 25%. Bancos públicos direcionados a projetos com adicionalidade, retorno social e avaliação de resultado — posição intermediária entre a ampliação proposta por Lula e Flávio e a redução proposta por Zema. Reindustrialização "sem proteção permanente ou escolha arbitrária de empresas".

Estatais e energia. Não propõe privatização de estatais. Petrobras e demais empresas públicas terão governança, eficiência e investimento, "sem uso partidário ou controle artificial de preços". A expansão privada se dá por concessões e PPPs.

O capítulo de energia é o mais elaborado da corrida: revisão gradual e transparente dos subsídios e encargos embutidos na conta de luz, com transferência progressiva ao orçamento público mediante decisão do Congresso; execução do cronograma de abertura do mercado livre; manutenção da gratuidade para famílias de baixa renda; planejamento energético com horizonte de 30 anos.

Reforma política. Propõe o fim da reeleição no Executivo, com aplicação inclusive ao mandato iniciado em 2027 — ou seja, autolimitando o próprio mandato caso eleito. Sistema distrital misto para as eleições legislativas. Painel único de emendas com autoria, objeto, beneficiário final, licitação e execução física.

Segurança, com repercussão econômica. Lei do Terrorismo Doméstico, com pena mínima de 45 anos para associação ou recrutamento e 35 anos para financiamento e lavagem; regime disciplinar com progressão apenas após 90% da pena; inversão do ônus da prova patrimonial; fundo financiado pelos bens recuperados, fora do orçamento discricionário e não contingenciável. Redução da maioridade penal para 16 anos em crimes graves. Agência de cooperação policial sul-americana (SULPOL).

Sobre jogos e apostas online: regulamentação com máximo rigor, proibição de publicidade em veículos de massa e redes sociais, teto para superendividamento e tratamento do jogo compulsivo como saúde pública.

Implicação. Aposta em produtividade, investimento privado e qualidade do gasto, e não em choque fiscal nem em privatização. A vantagem é a governabilidade: o PSD é peça central de qualquer coalizão viável e Kassab está na chapa. A fragilidade é que a estratégia depende de elevar a taxa de investimento em 8 pontos do PIB, meta que o plano não detalha como financiar no horizonte de um mandato.


Renan Santos (Missão, nº 14)

"O Futuro é Glorioso", 51 páginas — resumo executivo do Livro Amarelo

Diagnóstico do próprio plano. Déficit nominal do setor público consolidado de R$ 1,062 trilhão. Dívida pública federal encerrando 2025 em R$ 8,635 trilhões, crescimento de 18% sobre 2024. Dívida bruta do governo geral em 80,4% do PIB (R$ 10,44 trilhões), com a IFI do Senado projetando 100% do PIB em 2030 em cenário sem reformas. O gasto federal sem juros cresceu de 16% a 17% em termos reais no quadriênio 2023-2026, e apenas cerca de 10% dessa despesa é discricionária e não indexada ao salário mínimo. Enquanto o arcabouço limita o crescimento das despesas a 2,5% real, Previdência e Assistência crescem perto de 6% ao ano. Ajuste necessário citado: R$ 250 bilhões anuais, atribuído ao economista Mansueto de Almeida.

Política fiscal — a proposta mais estruturalmente radical da corrida. PEC de Transição a ser aprovada antes da posse, tomando por base a "PEC do Equilíbrio Fiscal" protocolada pelo deputado Kim Kataguiri em 2024, que prevê:

  • desindexação de benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo, passando a corrigi-los apenas pela inflação;
  • desvinculação dos pisos de saúde e educação da receita;
  • revisão do abono salarial;
  • redução de renúncias fiscais.

Economia projetada: R$ 1,1 trilhão até 2031. Objetivo declarado: substituir o arcabouço fiscal por um novo modelo.

Pacto federativo. "Grande Consolidação Municipal": fusão de municípios inviáveis, reduzindo o número de 5.570 para algo próximo de 1.656, com base em tese sobre amálgamas municipais da UFPB. O plano registra que quase 90% dos municípios gastam mais com folha do que arrecadam em tributos próprios, que o FPM distribuiu R$ 196 bilhões no último ano e que municípios gastaram R$ 5,2 bilhões com shows e eventos no biênio 2024-2025.

Lei de Responsabilidade Gerencial. Criação de um Comissariado Federal de Gestão Pública, autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda com mandatos fixos e independência inspirada no Banco Central, alocando comissários municipais em território com fiscalização em tempo real dos recursos federais. Municípios com desempenho crítico entram em "Tutela Gerencial", com dupla assinatura para gastos. Gestores que falharem reiteradamente ficam sujeitos a inelegibilidade superveniente. O repasse de fundo partidário e eleitoral passa a ser calculado com base na qualidade gerencial dos mandatários do partido.

Assistência. Substituição do Bolsa Família por "Frentes Cidadãs" — frentes de trabalho remuneradas para a população em idade economicamente ativa. O plano registra que os gastos com Bolsa Família e BPC aumentaram mais de 8 vezes em 15 anos, chegando a cerca de R$ 285 bilhões em 2025.

Desenvolvimento. Investimento em infraestrutura elevado dos atuais 2% do PIB para pelo menos 4%; meta mínima de 40 mil km de malha ferroviária; retomada de Angra 3. Zonas Econômicas Especiais no Nordeste (Suape, Pecém-Araripe, Aratu-Camaçari), além de uma ZEE de Defesa e uma ZEE de Terras Raras.

Sobre terras raras, o plano cita 23% das reservas mundiais (21 milhões de toneladas de óxidos, USGS 2026), contra 44 milhões da China, que responde por mais de 90% do refino. Propõe PEC declarando o tema questão de segurança nacional e financiamento de cerca de R$ 20 bilhões ao longo de uma década, com BNDES respondendo por 50%, agências americanas por 35%, fundos verdes europeus por 10% e capital privado por apenas 5%.

Segurança — proposta de ordem constitucional. Adoção do "Direito Penal do Inimigo", formulado pelo jurista alemão Günter Jakobs, como marco jurídico contra o crime organizado, com decretos sucessivos de Estado de Defesa, banimento judicial de organizações criminosas, retirada de direitos políticos e civis de indivíduos associados a facções, inversão do ônus da prova no confisco de bens e intervenção federal em estados com controle territorial faccional.

Implicação. Menos um programa de governo do que uma refundação institucional — o próprio documento a chama de "Estado Novo", feito pela via democrática. É a plataforma com maior distância entre desenho e implementabilidade: praticamente tudo exige emenda constitucional e o partido não tem bancada. Vale notar que o documento rejeita explicitamente o liberalismo "vulgarizado pela nova direita", segundo o qual bastaria privatizar tudo e retirar o Estado de todas as áreas — e, de fato, usa o BNDES como principal instrumento de financiamento industrial.


As demais candidaturas

Nenhuma pontua de forma relevante nas pesquisas, mas seus planos delimitam o espectro do debate.

  • Augusto Cury (Avante, 70), 200 páginas — o mais longo da corrida. Ministério do Empreendedorismo com meta de 10 milhões de novas microempresas.
  • Wilson Grassi (Democrata, 35), 58 páginas. "Imposto Único Federal" sobre movimentação financeira, substituindo nove tributos e desonerando a folha.
  • Clariana Barão (DC, 27), 15 páginas. Proteção de mulheres e crianças como eixo transversal; "federalismo de resultados".
  • Hertz Dias (PSTU, 16), 33 páginas. Estatização e expropriação de Petrobras e Vale sob controle dos trabalhadores; fim da escala 6x1; jornada de 36 horas.
  • Edmilson Costa (PCB, 21), 16 páginas. Estatização do sistema financeiro; Petrobras 100% estatal; jornada de 30 horas.
  • Rui Costa Pimenta (PCO, 29), 7 páginas. Estatização do sistema financeiro; cancelamento de todas as privatizações; reforma agrária com expropriação.
  • Samara Martins (UP, 80), 2 páginas — o mais curto. Reajuste de 100% do salário mínimo; nacionalização de bancos e planos de saúde.
  • Pablo Marçal (PRTB). Candidatura registrada em 15 de agosto por liminar que permitiu refiliação retroativa. Declarado inelegível até 2032 pelo TRE-SP em razão da campanha municipal de 2024, recorre ao TSE. Não havia plano de governo cadastrado no site do TSE na data da consulta.

Onde estão as divergências reais

Lidos os cinco documentos, o eixo esquerda-direita explica menos do que se supõe.

Previdência — o eixo mais determinante para a dívida em vinte anos

CandidaturaPosição
ZemaReforma definitiva, idade automática, incluindo estados, municípios, rural e militar
Renan SantosDesindexação de benefícios do salário mínimo
CaiadoContenção do crescimento das obrigatórias, sem reforma específica
LulaNenhuma reforma; manutenção da indexação
FlávioNenhuma reforma; apenas combate a fraude e fim da fila do INSS

No eixo que mais pesa na trajetória fiscal de longo prazo, PT e PL ocupam a mesma posição.

Crédito direcionado e bancos públicos — cinco posições distintas

CandidaturaPosição
LulaBNDES como agente central de financiamento
FlávioCAIXA, BNB e BASA ampliados como motores de crédito popular
Renan SantosBNDES liderando consórcios de investimento em terras raras
CaiadoBancos públicos condicionados a adicionalidade e avaliação
ZemaRedução gradual do crédito direcionado, inclusive do BNDES

Privatização — há muito menos disputa do que a campanha sugere

Apenas Zema propõe privatizar todas as estatais. Lula mantém. Caiado profissionaliza sem vender. Flávio tem programa de desestatização sem percentual declarado e simultaneamente amplia os bancos públicos. Renan Santos rejeita explicitamente a agenda de "privatizar tudo".

Programas sociais

Nenhuma das cinco candidaturas principais propõe extinguir a transferência de renda. Lula amplia; Flávio mantém com revisão de gestão; Caiado mantém conectado a qualificação; Zema mantém condicionado a trabalho ou estudo; Renan Santos substitui por frentes de trabalho remuneradas. A divergência é sobre focalização, condicionalidade e formato — não sobre existência.

Inserção externa

Apenas Zema propõe sair do BRICS, transformar o Mercosul em zona de livre comércio e alinhar tarifas de importação para baixo. É a proposta de maior consequência comercial em toda a corrida e teve pouca discussão pública.


Três convergências que a campanha não discute

Emendas parlamentares. Os cinco planos atacam o tema. Lula cita os R$ 50 bilhões de 2026. Caiado propõe painel único com beneficiário final e execução física. Zema quer revisar seu crescimento automático. Renan Santos quer condicionar o fundo partidário à qualidade da gestão. Flávio tem capítulo de processo orçamentário. Em um país onde a captura do orçamento discricionário pelo Legislativo é provavelmente o maior obstáculo prático a qualquer agenda fiscal, há consenso unânime entre os cinco — e o tema quase não aparece no debate.

Fim da reeleição. Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado propõem extingui-la no Executivo. No caso de Caiado, o plano é explícito quanto à aplicação ao próprio mandato iniciado em 2027.

Autonomia do Banco Central. Nenhum dos cinco propõe alterá-la.


Correções

As afirmações abaixo circulam amplamente em resumos jornalísticos e materiais de casas de análise sobre esta eleição. A leitura dos documentos registrados no TSE não as confirma. Estão aqui porque você provavelmente as encontrará em outras fontes.

"Flávio Bolsonaro propõe privatizar 95% das estatais federais." Não consta do plano registrado, que traz um Programa Nacional de Desestatização sem percentual nem lista. O número vem de declarações de campanha. O plano, em sentido oposto, propõe ampliar o papel da CAIXA, do Banco do Nordeste e do Banco da Amazônia.

"Flávio Bolsonaro propõe nova reforma da Previdência e a desindexação do salário mínimo em relação à Previdência e ao BPC." Não consta. O capítulo previdenciário trata de fraude e de fila do INSS. A desindexação de benefícios e a desvinculação dos pisos de saúde e educação são propostas do plano de Renan Santos, não do de Flávio Bolsonaro. Esta é a correção mais consequente da lista: são as duas medidas de maior impacto fiscal estrutural em disputa, e estão no programa da candidatura menos competitiva, não na da mais competitiva do campo conservador.

"Renan Santos propõe extinguir a Justiça do Trabalho e adotar previdência de capitalização no modelo chileno." Nenhuma das duas consta do documento registrado no TSE. O plano cita a litigiosidade trabalhista como gargalo de produtividade, sem propor extinção do órgão. Ressalva: o documento é um resumo executivo; ambas podem constar da versão integral do Livro Amarelo, não registrada no TSE.

"O plano de Ronaldo Caiado é pouco detalhado em macroeconomia." Não se sustenta. São 26 temas, cada um com diagnóstico, propostas numeradas e indicadores. Números frequentemente atribuídos à candidatura — economia de R$ 330 bilhões na reforma administrativa, Custo-Brasil de 23% — não constam do documento e vêm de declarações de campanha.

"A meta de resultado primário de Lula é de R$ 34,2 bilhões" e "o plano do PT propõe tributar grandes fortunas." A meta de primário vem da LDO, não do plano. E o programa registra a tributação de offshores, fundos exclusivos e renda dos mais ricos como algo já realizado; para o próximo mandato fala genericamente em justiça tributária, sem proposta específica sobre patrimônio.

Vale notar o padrão: nos três casos mais graves, o erro ia na mesma direção — tornava cada candidatura mais parecida com o estereótipo do seu campo político do que ela de fato é no documento que assinou.


Três advertências que valem mais que os programas

O Congresso decide. Desindexar benefícios, desvincular pisos constitucionais, reformar a Previdência, privatizar a Petrobras, fundir municípios, extinguir a reeleição — tudo exige emenda constitucional, com três quintos das duas casas em dois turnos. O resultado das eleições legislativas e a capacidade de coalizão do eleito importam mais para a economia de 2027 do que o texto de qualquer plano.

Programas de campanha são péssimos preditores. O governo Bolsonaro prometeu privatizações amplas e entregou poucas. Lula, em 2002, foi eleito com um programa que o mercado temia e governou com superávit primário. A restrição orçamentária costuma vencer a plataforma.

O ambiente externo pode dominar tudo. Preço de commodities, política monetária americana e fluxo de capital para emergentes explicaram historicamente boa parte da variação do câmbio e do risco-país brasileiro — às vezes mais que a orientação do governo de turno.


Nota final

Este texto descreve o que cada candidatura propõe e discute implicações econômicas plausíveis. Não afirma qual seria melhor para o país, e essa omissão é deliberada.

A escolha depende de como cada eleitor pondera crescimento contra proteção social, ajuste rápido contra ajuste gradual, risco de execução contra risco de inércia, e o quanto valoriza governabilidade em relação a ambição reformista. Essas ponderações não são técnicas: são políticas e morais, e pertencem a quem vota.

A recomendação prática que este texto sustenta é outra e é simples: os planos de governo registrados no TSE são públicos e gratuitos, e neste caso desmentiram a cobertura em pontos centrais. Vale ler os originais antes de formar opinião.

Quem decide é o eleitor.


Fontes. Primárias: planos de governo registrados no TSE (DivulgaCandContas), consultados em agosto de 2026. Secundárias, para o quadro macroeconômico: Boletim Focus do Banco Central de 24 de agosto de 2026 e dados de desocupação do IBGE.

Disclaimer. Conteúdo informativo e educacional. Não é recomendação de investimento nem análise de valores mobiliários nos termos da Resolução CVM nº 20/2021. Não é propaganda eleitoral, não foi produzido ou financiado por campanha, partido ou coligação, e não declara apoio a nenhuma candidatura. O ContextoQuant não assume responsabilidade por decisões tomadas com base neste material. Cenários políticos são incertos e desempenho passado não garante resultado futuro.